Panopticon

#4 Fogo e Cinza em Banteay Srei

VARGAS
Agora vejo. Olho para trás, para cada instante e tudo é claro. Cada passo, cada erro, cada emoção. E o dia que prometia tanto…
Quando o sol rasgou o horizonte, avançámos. O pequeno templo erguia as suas muralhas em contraluz. Rapidamente, eu e Frederick demos a volta às muralhas e testámos o pequeno lago que as rodeava. Nada. Nenhuma reacção, nenhum sinal de vida.
Estaríamos na pista certa? Estariam os vigias de Aiwenore ali dentro? Sem mais pistas para seguir, teríamos de entrar ali.
Enquanto discutíamos cautelosamente como o fazer, Thuriel avançou pela estreita ponte de pedra que ligava à entrada principal. Inevitavelmente, pensei para comigo que, se estivéssemos a bordo de um navio meu, tal atitude o teria deixado amarrado a um mastro por uma boa semana. No entanto, nenhum perigo se revelou e, assim sendo, seguimo-lo. Para lá do pátio, descobrimos uma entrada subterrânea que conduzia a uma câmara de tortura.
Para variar, a Velha fez uma das dela. Revirou os olhos e um pequeno rato soltou-se de entre as vestes dela, vasculhando o interior. Poderia jurar que ela sabia o que o rato via e, quando ele não voltou, havia uma dor de morte na cara dela. Pode ser superstição de marinheiro, mas a Velha sempre me provocou arrepios na espinha.
Descemos para a câmara de tortura, onde demos com um porta engradada e, para lá desta, com um Orc distraído. Após barricar a sala, para evitar reforços, ergui o pesado gradeamento e entrei, sozinho, na sala onde ele se encontrava. Atraí-o para mim. O que
ele não esperava era um ataque concentrado da nossa tripulação. Assim que ele se colocou num ponto visível para todos, atacámo-lo em simultâneo. Não teve qualquer hipótese. Provavelmente acreditava num duelo justo. É óbvio que nunca se encontrara com um pirata. A honra é sobrevalorizada, mesmo entre Orcs. Claro que o Meio-Elfo, Thuriel, reclamou de lhe termos roubado a honra de vencer o bruto esverdeado, chegando mesmo a dizer-me que nunca mais interferisse num combate dele. Ignorei os seus protestos idiotas e não contive um sorriso quando ele rodou a maçaneta armadilhada de uma porta que conduzia a uma sala desabada. Ele não se feriu, mas a sorte nem sempre o acompanhará.
Seguimos por um corredor onde a Velha dissera haver ruídos, embora nenhum de nós tivesse ouvido nada. No meu coração, eu sabia que quem ouvira algo fora o rato que ela enviara anteriormente. Thuriel seguiu de novo à frente e anotei mentalmente mais uma semana no mastro, para o disciplinar. Contudo, o meu pensamento foi interrompido pelos
gritos dele. Corri, amaldiçoando a impetuosidade do Meio-Elfo e ponderando que talvez não me devesse intrometer na sua preciosa batalha. Ainda assim, ele era um dos meus, pelo que segui em seu auxílio. Deparei-me com uma enorme sala vazia, onde nos esperava um monstro horrível, de um só olho e garras afiadas. Antes que eu lhe conseguisse acertar, o monstro rasgou-me a carne do peito com as suas poderosas garras. Cambaleei, atordoado pela dor, mas logo contra-ataquei numa sucessão de golpes rápidos. O olho do monstro perdeu o brilho da vida e ele caiu por terra, inerte. Irritado com as enormes feridas que ele me infligira, cuspi-lhe em cima. Talvez por culpa, Thuriel enfaixou-me o peito, estancando as feridas. Ainda assim, eu sentia-me fraco demais para fazer o que fosse, pelo que deixei o resto do grupo explorar a sala e verificar se era seguro avançar e por onde. Anouk, Fredrick e o druida seguiram por um corredor, enquanto eu me deixei ficar para trás, junto da Velha, ciente de estar fraco demais para combater. O Meio-Elfo decidiu ficar a nosso lado, sabendo que já arriscara demais seguindo na frente.
Foi então que o vi, àquele mastim infernal, cuspindo fogo demoníaco e exalando nuvens de enxofre. Uma das portas da sala ficara por explorar e, agora, os mais fracos do grupo eram apanhados de surpresa por uma criatura dos Infernos. O mastim abriu as mandíbulas e eu pensava apenas que devia correr; tirar a Velha do caminho, talvez, se tivesse tempo; deixar Thuriel pagar pela sua imprudência; atirar os dois para o fogo e escapar… Mil pensamentos na minha cabeça e o dia a passar-me diante dos olhos.
Agora. Agora vejo. O fogo vem na minha direcção, pronto para consumir a minha carne. A meu lado, a Velha já arde. Geerbo, o kobold, grita, começando a fugir. Thuriel consegue desviar-se, mas não sem algumas queimaduras. Sei que vou morrer. E sei agora que a culpa é minha, que fui tão imprudente como o Meio-Elfo. Deixei-me levar pela emoção de não controlar esta tripulação. Sei que não estamos num barco e eu queria que tudo fosse como em alto mar. E, agora que o fogo me lambe a pele, sei que o meu castigo é estar no inferno, para toda a eternidade, amarrado ao mastro do meu navio.

GAWAIN
Há quantos dias estou aqui?
Há quantos dias me cortam e queimam sem perguntar nada? Eles torturam-me apenas pelo prazer dos gritos que não dou, que me recuso a dar.
A cada nova ferida, a cada estalar dos meus ossos cansados, só murmuro, ininterruptamente: “O meu nome é Gawain Ellansad. Eu sou a espada e a balança. A tua sentença é a morte. Em mim arde…”
Os malditos Orcs interrompem a frase com mais uma facada e riem.
Riem desde o dia em que me capturaram, por sorte, quando me dirigia para a Prisão de Blackrock, a minha melhor pista para descobrir a Velha vidente de que me haviam falado. Preciso sair daqui, preciso de a encontrar, descobrir o que sabe ela de necromantes e por que motivo foram as minhas terras e a minha gente chacinada por mortos-vivos.
Isso e descobrir onde está a minha filha. Terá escapado da chacina?
“Precisamos de um plano”, diz o halfling preso comigo.
“Precisamos matar estes sacanas traiçoeiros”, suspira um dos elfos de Aiwenore, o último que ainda respira.
“Eles tiveram sorte quando me apanharam. Há muito que eu não viajava, há muito que eu pendurara a espada da minha família.
Agora não teriam tanta sorte.”, respondo.
Palavras vãs. Até ao momento em que eles entram. Um pequeno grupo de quatro, enviados pela aldeia dos Elfos para socorrer os guardas. A mulher humana abre a nossa cela.
A vingança é rápida, mas sem misericórdia. Orcs e uma Naga de Osso caem perante nós.
O fogo tratará do resto.
Eu sou a espada e a balança. Em mim arde o fogo da vingança.

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igor_lebreaud

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